Boletim semanal – 14/12 a 18/12

A partir de hoje, passaremos a divulgar todo o sábado um boletim com a análise e divulgação de dados conjunturais da semana anterior.

link para download do boletim completo: https://www.dropbox.com/s/f0mnlialrxjwftd/Boletim%20semanal_19122015.pdf?dl=0

Resumo desta semana:

1 – Atividade econômica: Vendas no varejo interrompem oito meses de taxas negativas; setor de serviços segue fraco; confiança da indústria recua;

2 – Mercado de trabalho: Desemprego sobe (com ajuste sazonal); 130 mil postos de trabalho formais perdidos em novembro;

3 – Crédito e política monetária: FOMC decide elevar juros no EUA;

4 – Política fiscal: Brasil perde grau de investimento pela segunda agência; orçamento de 2016 é aprovado com meta fiscal revisada; aprovação do governo Dilma segue em baixa; substituição de Levy na Fazenda;

5 – Inflação: recuo nos preços ao produtor dá fôlego ao IGP-M; preços dos alimentos e de transportes seguem pressionando a inflação;

6 – Projeções: esperamos inflação acima de 10,00% em 2015;

Equipe NEOC – Inscrições abertas!!

Por NEOC

O NEOC está selecionando novos membros para sua equipe. Basta ser aluno da Faculdade de Economia da UFF e estar cursando no mínimo o 2º período da graduação.

O que fazemos no NEOC:

  • Elaboração de cenários macroeconômicos;
  • Acompanhamento da conjuntura econômica;
  • Modelagem e previsão de variáveis macroeconômicas;
  • Estudos regulares sobre temas variados relacionados à conjuntura;

O processo seletivo:

A seleção será feita por meio de uma prova a ser realizada no dia 03/12 e por meio de entrevistas individuais a serem marcadas de acordo com a disponibilidade na semana seguinte à realização da prova.

As inscrições ficarão abertas até o dia 01/12.

Para se inscrever, basta preencher alguns dados no link: https://docs.google.com/forms/d/1LVkYcJSuFleoD9TJFtYz8PskJG-3xoTYhFP485kkKgE/viewform

Esperamos você!

Uma breve análise dos principais resultados da PMC de julho de 2015

*Por Johann Soares

Recentemente, foi divulgado o resultado da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do mês de julho pelo IBGE. Entre os resultados divulgados, o que mais chama atenção é o descolamento entre volume de vendas no comércio varejista restrito e o volume de receita nesse setor. Como podemos ver no gráfico abaixo, com as duas séries dessazonalizadas, após longo período de crescimento de ambas, o volume de vendas começa a ceder no atual ajuste macroeconômico efetuado no país. Porém, o volume de receitas permanece em movimentos crescentes.

pmc

Fonte: IBGE; Elaboração: NEOC.

Primeiramente, vale explicar a recente queda no volume de vendas no comércio varejista restrito. Como já foi mencionado, é resultado do atual ajuste macroeconômico sofrido pelo país, no qual se destacam fatores como elevação do desemprego, elevação na taxa básica de juros e queda do nível de confiança dos consumidores.

A partir da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), também realizada pelo IBGE, podemos verificar elevação considerável da taxa de desemprego nos últimos dados, tendo atingido um patamar de 7,6% em agosto de 2015, o maior resultado desde março de 2010. Um menor nível de emprego no país implica menor poder de consumo e, por conseguinte, menor índice de volume de vendas no comércio varejista.

De fato, a taxa de desemprego da PME e o volume de vendas da PMC são altamente correlacionados, atingindo uma correlação de -0,9694622. Além disso, a partir de um teste de Granger em que os critérios de informação sinalizaram uma defasagem, podemos concluir que a taxa de desemprego granger causa o índice de volume vendas do comércio. É válido ressaltar que foi utilizada a primeira diferença das séries dessazonalizadas.

Com relação à taxa Selic, temos que elevações dos juros estão associadas a um menor poder de consumo, já que o torna mais caro (vide taxa de juros ao ano do cartão de crédito). A correlação entre essas duas séries é de -0,7735083, o que indica que o atual aperto monetário, com taxa SELIC de 14,25% está associado a uma redução no volume de vendas do comércio varejista.

Por último, no que se refere à queda do nível de confiança dos consumidores, podemos imaginar que quando os agentes estão desconfiantes, restringem seu padrão de consumo, adotando uma postura mais defensiva. Porém, utilizando o Índice de confiança dos consumidores da Fecomércio de São Paulo (ICC), temos uma correlação com o volume de vendas do comércio varejista não muito significativa, sendo que o resultado foi de 0,5311491 e, além disso, o teste de Granger (utilizando uma defasagem, segundo os critérios de informação) indicou que o ICC não granger causa o índice de volume de vendas da PMC.

Entretanto, no último relatório de inflação, o BC divulgou um boxe em que se apura a propriedade de indicador antecedente dos índices de confiança em relação ao volume de vendas do comércio varejista. Ou seja, se e quais indicadores de confiança possuem capacidade preditiva no que se refere ao volume de vendas da PMC. Os resultados dos testes indicaram que o ICC-Fecomércio possui tal capacidade preditiva, sendo um bom indicador preditivo, tanto na previsão contemporânea como na previsão com um passo a frente.

Dessa forma, podemos concluir que, mesmo com uma correlação pouco significativa “a recuperação do consumo deverá vir atrelada à retomada da confiança do consumidor, dentre outros fatores”, como afirma o BC em seu relatório de inflação divulgado em setembro de 2015.

Após ter explicado a recente redução no volume de vendas do comércio varejista, precisamos analisar o fato de o volume de receita neste setor não estar também reduzindo. Uma explicação básica é a evolução do índice de preços no Brasil. Mesmo que se tenha um menor volume de vendas no mês de julho deste ano, o preço dessas vendas se acelerou, fazendo com que o volume de receitas aumentasse. Vale a pena ressaltar que estamos falando de receita e não de lucro, pois não necessariamente o lucro do comércio também tenha aumentado, já que o preço de muitos dos insumos também se elevou.

Para verificar esse efeito graficamente, utilizamos o IPCA mensal medido pelo IBGE e contrastamos com a variação do preço médio do comércio varejista (volume de receita/volume de vendas). As séries estão dessazonalizadas.

pmc2

Fonte: IBGE; Elaboração: NEOC

No gráfico acima, podemos perceber que as séries são altamente correlacionadas e de fato a correlação entre elas é de 0,8310862. Com tal resultado, é válido inferir que elevações no IPCA estão associadas a um maior descolamento entre volume de receita e volume de vendas da PMC, de forma que em períodos de IPCA elevado como o atual, o volume de receitas se expande em relação ao volume de vendas.

Concluindo, o volume de vendas do comércio varejista restrito está reduzindo por causa do atual ajuste macroeconômico. O volume de receita da PMC não o faz por causa de sua relação com o nível de preços na economia, de forma que, se o IPCA mensal não estivesse acelerado, provavelmente não teríamos um descolamento entre volume de receitas e volume de vendas do comércio varejista.

*Graduando em Economia-UFF

Quem veio primeiro? O Spread ou a Inadimplência?

Por Johann Soares*

Muito se fala da influência da inadimplência sobre a magnitude do spread bancário e o quão ela é significativa para a explicação de o Brasil ter um dos maiores spreads do mundo. Porém, pouco se fala da via contrária ou, em outros termos, a influência do spread bancário sobre a magnitude da inadimplência.

Na primeira via, elevações da inadimplência fazem com que a receita dos bancos seja prejudicada e o risco de suas operações se mantenha elevado. Sendo assim, tais instituições elevam o spread para compensar as perdas com a inadimplência. Na segunda via, elevações no spread fazem com que as operações sejam mais caras, dificultando as condições de pagamento por parte do tomador de empréstimo, causando atrasos e inadimplência no pagamento de suas obrigações.

Dado esse panorama, podemos perceber que a relação entre spread e inadimplência é uma via de mão dupla e se constitui em um ciclo, em que um termo é puxado pelo outro. O que nos resta entender é quem puxa o ciclo, isto é, quem veio primeiro. Será que o spread mantém uma relação de causalidade temporal com a inadimplência ou seria o contrário?

Para responder esta pergunta, utilizamos as séries de Spread médio total das operações de crédito e Inadimplência total das carteiras de crédito, 20783 e 21082, respectivamente, no Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central. Com tais séries, nós fizemos Testes de causalidade de Granger e correlações cruzadas entre as mesmas. Podemos observá-las no gráfico abaixo.

img1

No gráfico acima, podemos perceber que os movimentos do spread parecem preceder a inadimplência, o que seria um indicativo de que ele é marca o início do ciclo (pelo menos no horizonte compreendido pela série do BC, que é a partir de março de 2011). Para testar tal indicativo, precisamos fazer o teste de Granger.

As séries utilizadas no teste foram a primeira diferença de cada uma, por causa da necessidade de estacionariedade das mesmas e segundo o teste ADF sequencial. Além disso, os testes foram feitos com uma ordem de defasagem de acordo com os critérios de informação. Os testes realizados são os seguintes:

  1. Hipótese nula: Spread não causa Inadimplência. Neste teste, tivemos os seguintes resultados: F = 4,0908 e Pr(>F) = 0,04871
  2. Hipótese nula: Inadimplência não causa Spread. Neste teste, tivemos os seguintes resultados: F = 0,5899 e Pr(>F) = 0,4462

No primeiro teste, como apresentado, rejeitamos a hipótese nula, de forma que spread causa inadimplência. Já no segundo, não rejeitamos a hipótese nula, de forma que inadimplência não causa spread. Sendo assim, respondemos a pergunta que havíamos formulado e corroboramos a intuição do gráfico apresentado. O spread inicia o movimento, seguido pela inadimplência. Dessa maneira, teríamos uma sequência de “spread – inadimplência – spread” e não de “inadimplência – spread – inadimplência”.

Para reforçar os resultados obtidos, realizamos testes de correlações cruzadas e pudemos observar que a correlação defasada entre spread e inadimplência é maior que a contemporânea, o que atesta ainda mais a percepção de que o spread precede a inadimplência:

img2

Essa relação entre spread e inadimplência é um tanto complexa e se configura como um problema crônico no Brasil, que possui taxas de inadimplência e spread consideravelmente elevadas. Portanto, um entendimento acerca dessa relação é crucial para a tentativa de resolver tais problemas no mercado de crédito brasileiro e a identificação do elemento que inicia o movimento, no caso o spread, pode contribuir para a formulação de diretrizes que consigam amenizar tais taxas elevadas.

**Você pode acessar o script do R utilizado neste trabalho aqui.
 

[1] Para os testes, foi considerado um intervalo de confiança de 5%.

 

*Graduando em Economia-UFF.